Nanotecnologia criada na UFMT pode aumentar produtividade em até 3 sacas de soja por hectare

Pesquisadores desenvolveram um nanofertilizante à base de carbono que acelera a fotossíntese e pode gerar ganho estimado de até R$ 300 por hectare, segundo testes realizados em soja
Uma nanotecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) pode ajudar a aumentar a produtividade no campo e, consequentemente, o lucro do produtor rural. Em testes com soja, o uso de um nanofertilizante à base de carbono apresentou ganhos de até três sacas por hectare.
A estimativa dos pesquisadores é que o resultado possa representar cerca de R$ 300 livres a mais por hectare para o produtor, já considerando o custo de aquisição do nanoinsumo.
Ao Primeira Página, o professor da UFMT Ailton Terezo explicou que a tecnologia começou a ser desenvolvida por volta de 2018, dentro da UFMT, a partir de estudos conduzidos por ele e os pesquisadores Adriano Buzutti, Marilza Castilho e Adriana Cardoso com nanopartículas sustentáveis à base de carbono.
Atualmente, a tecnologia é testada em campos agronômicos experimentais credenciados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Os testes são necessários para comprovar a eficiência do nanofertilizante e avançar no processo de registro do produto. Por enquanto, o nanoinsumo ainda não pode ser utilizado diretamente por produtores rurais.
Como a nanotecnologia age nas plantas
Para entender a tecnologia, primeiro é preciso imaginar uma escala praticamente invisível. Um nanômetro corresponde a um metro dividido em um bilhão de pequenas partes.
Segundo Ailton, os materiais podem apresentar comportamentos diferentes quando reduzidos à escala nanométrica. No caso dos nanocarbonos desenvolvidos pelos pesquisadores, as partículas interagem com a luz e podem contribuir com o processo de fotossíntese das plantas.
"É um material que acelera o crescimento das plantas porque acelera a fotossíntese", explicou o professor.
Na prática, o material absorve radiação ultravioleta e emite luz em comprimentos de onda que podem ser aproveitados pelas plantas durante a fotossíntese, processo essencial para o crescimento vegetal.
Os estudos já avaliaram a resposta de diferentes culturas à nanotecnologia. Segundo o pesquisador, foram observados ganhos em testes com soja, alface, tomate e braquiária. No caso da soja, os experimentos em campo registraram aumento de até três sacas por hectare.
Até R$ 300 a mais por hectare
A partir dos resultados obtidos com a soja, os pesquisadores fizeram uma estimativa do possível impacto econômico da tecnologia para o produtor.
De acordo com Ailton, o nanoinsumo terá um custo de aquisição, mas poderá ser aplicado junto a outros produtos já utilizados na lavoura, sem exigir uma operação exclusiva de aplicação. Considerando os custos e o ganho de produtividade observado nos testes, a estimativa chegou a cerca de R$ 300 livres por hectare.
Em uma área de mil hectares, por exemplo, o valor adicional poderia chegar a R$ 300 mil, caso o desempenho observado nos experimentos se repita em escala comercial. O valor não é lucro garantido — trata-se de uma estimativa dos pesquisadores com base nos resultados obtidos até agora.
O professor destaca que o aumento da produtividade pode ter impacto direto na lucratividade da atividade agrícola. A tecnologia, no entanto, ainda passa por etapas de validação antes de chegar ao mercado.
Algodão teve ganho de massa em teste preliminar
Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores foi observado no algodão. Em experimentos realizados em casa de vegetação, as plantas apresentaram ganho de mais de 170% de massa durante a fase vegetativa.
O número, porém, não representa aumento de 170% na produtividade do algodão. Segundo Ailton, os experimentos foram preliminares e tiveram como objetivo verificar se a planta respondia à nanotecnologia. "Esse ganho foi em experimentos em casa de vegetação e na fase vegetativa da planta", esclareceu.
O algodão ainda não passou por testes em campos agronômicos experimentais credenciados pelo Mapa para avaliar os efeitos do nanoinsumo sobre a produtividade da cultura.
Nanofertilizante aproveita resíduos da agropecuária
Além dos resultados agronômicos, a tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores tem como base o carbono e utiliza produtos renováveis. Durante os estudos, a equipe também conseguiu produzir nanopartículas a partir do aproveitamento de resíduos da própria agropecuária, entre eles dejetos da suinocultura e a vinhaça gerada na produção de etanol de cana-de-açúcar.
Segundo o professor, resíduos com alta carga orgânica podem representar uma preocupação ambiental para empresas e para a população. A proposta é utilizar esses materiais no desenvolvimento da nanotecnologia.
As pesquisas deram origem à NanoGrow, startup criada a partir dos estudos desenvolvidos dentro da UFMT. Por meio da empresa, os nanomateriais começaram a sair do ambiente exclusivamente acadêmico e avançaram para testes agronômicos em campo. A expectativa é validar as tecnologias em maior escala e avançar nas etapas necessárias para que o nanofertilizante possa chegar ao mercado.
Fonte: gcnoticias