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EMPRESÁRIOS DE SAPEZAL PUXAM O FIO DA MEADA

Publicado em 11 de Junho de 2019 ás 15:00

Investidores locais somam forças para implantar a primeira indústria que irá transformar a gigantesca produção de algodão do município em produtos acabados. O “ouro branco”, que há anos é vendido em seu estado bruto, começará a ser processado no município, provocando uma reação em cadeia em toda a economia, forjando a nova “joia” de Sapezal

Sapezal produz quase metade de todo algodão colhido no País. É um “novelo” gigante que na última safra pesou mais de 635 mil toneladas. Um emaranhado de fibra que em seu estado bruto vale R$ 3,7 bilhões. A cifra é considerável, mas nem perto das riquezas que esse “ouro branco” gera depois que sai de Sapezal. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), para fora da porteira o algodão movimenta na economia brasileira 135 bilhões de dólares, arrecadando mais de 28 bilhões de dólares em impostos e gerando 1,3 milhão empregos diretos. Pelo menos metade de todo esse negócio bilionário começa em Sapezal – mas menos de 1% fica de fato no município. É a clássica diferença entre quem planta a matéria prima e quem a industrializa. Quem planta algodão em Sapezal vende 45 quilos da pluma pelo preço que compra uma camiseta. Para começar a puxar o fio dessa meada, um grupo de empresários de Sapezal somou esforços para implantar a primeira indústria têxtil do município. A planta industrial vai transformar a fibra do algodão em produtos acabados, prontos para o consumo. E essa é só a ponta do novelo. A indústria começou a ser costurada por dois empresários de Sapezal. Filemon Feitosa, um paranaense que veio para o Mato Grosso em 1997 cursar agronomia, é dono de um posto de combustível e uma revenda de insumos no município – além de uma empresa de polpa de frutas no Nordeste brasileiro. Em 2015 ele formou uma sociedade com Wagner Navarro, um empresário do ramo do aço com mais de 15 anos de Sapezal, para implantação de um loteamento urbano. O residencial El Shadai, com 434 lotes, que em seu lançamento, em dezembro de 2018, foi vendido em 72 horas. Como essa parceria veio dando certo, surgiram outros negócios que atraíram a atenção dos empreendedores, e advindo de uma parceria no ramo do aço entre Navarro e Fábio, que já tinham uma construção de um galpão de 2,6 mil metros quadrados – em uma área de 20 mil metros quadrados com capacidade de expansão de mais 20 mil. O imóvel da dupla de sócios tinha cara, tamanho e potencial para abrigar uma indústria. Bastava correr atrás desse novo negócio. Foi então que Fábio juntou-se a Navarro e Filemon para formarem a indústria têxtil de Sapezal! Nem fruta, nem aço. Os três empresários decidiram sair da sua zona de conforto e investir em um novo setor: o algodão. No segundo semestre de 2018 eles começaram a modelar o negócio. Viajaram para Minas Gerais, Paraná e São Paulo, visitando indústrias têxteis. Eles estavam mirando no negócio mais óbvio, mas que até então ninguém em Sapezal havia se arriscado a investir. A pesquisa apontou a viabilidade da instalação de uma indústria de processamento de algodão. Com o modelo definido, eles começaram a ajustar o galpão industrial e adquirir os equipamentos em dezembro de 2018. Em fevereiro, boa parte do parque de máquinas já estava instalado. Segundo Navarro, as máquinas da indústria fabril entram em operação no final de junho. A planta foi projetada para absorver uma demanda inicial de 260 toneladas de fibra de algodão por mês – menos de 0,5% da produção de algodão de Sapezal ao longo de um ano. “A indústria comprará a fibra de algodão processada por uma desencaroçadeira de Sapezal. Essa será a matéria prima que abastecerá nossas máquinas”, explica Navarro. A indústria foi batizada de Tex Norte e conta ainda com outro sócio, o Cláudio Aparecido Cândido, que já é da área há algum tempo na região de Minas Gerais. Nessa primeira fase foram investidos cerca de R$ 9 milhões na unidade. De acordo com Navarro, a indústria começa tecendo um produto voltado para própria cadeia produtiva: sacarias para fardos de algodão. A algodoeira de Sapezal vende sua produção acondicionada em sacos de algodão. Mas essas embalagens são fabricadas há quase dois mil quilômetros de distância, no interior de São Paulo, Minas e  Paraná. Ou seja, o algodão colhido em Sapezal viaja até o Sudeste do Brasil, é transformado em sacarias que voltam para o município, onde serão utilizadas para transportar mais algodão. “A algodoeira que opera em Sapezal tem uma demanda de 750 mil sacos para transporte da fibra por ano. A Tex Norte começa buscando produzir sacarias para essa indústria”, revela Navarro. Os principais fornecedores de matéria prima serão, nesse momento, os principais clientes. Conforme o empresário, a planta está sendo modulada para produzir 180 mil sacos de enfardar algodão por mês. Dessa forma, até agosto, quando as compras são feitas pelas algodoeiras, a Tex Norte terá o estoque suficiente para fazer jus ao pedido. “A primeira indústria têxtil de Sapezal é um sonho de empreendedor que se concretiza. É algo que começa aproveitando a demanda local por um produto específico mas que tem potencial para crescer e expandir, com uma gama de diferentes produtos. Afinal de contas, a matéria prima está aqui”, comenta Filemon. Para o secretário de Indústria e Comércio de Sapezal, Regis Martins, a Tex Norte está deflagrando o processo de industrialização do município. “Hoje nós temos a maior indústria do mundo no município que é o agronegócio, o grande gerador de riqueza do nosso Estado e do País. Com essa indústria, vemos o sonho do parque têxtil começar a sair do papel. Toda matéria prima está aqui. A abertura da Tex Norte gera condições favoráveis para que outras indústrias e comércios venham no esteio desse investimento. É o começo de um novo alicerce da economia de Sapezal”, opinou o secretário. O parque fabril da Tex Norte conta com máquinas produzidas na Alemanha, mas que já estavam atuando na indústria nacional. Os equipamentos vão produzir fios a partir da fibra – produto que por si só pode ser comercializado para outras indústrias têxteis. O parque da Tex Norte também conta com teares, que transformam esse fio em tecidos. A linha final da produção, por enquanto, são as máquinas de costura, que fabricarão as sacarias. “Nossa indústria também contará com a parte de tintura, que é mais uma etapa da transformação do algodão em tecido”, revela Navarro. Com isso, quando a demanda da algodoeira for atendida, a Tex Norte poderá colocar seus teares para produzir rolos de tecido de algodão e até mesmo jeans. A indústria deve gerar 70 empregos diretos inicialmente. Para garantir a mão de obra e aproveitar a indústria como uma geradora de empregos, a Prefeitura de Sapezal iniciou um processo de formação profissional por meio da Secretaria de Assistência Social. “O município viabilizou parceiras para cursos de qualificação das pessoas que irão trabalhar na indústria têxtil. O próximo passo será a formação de costureiras, estimulando a criação de cooperativas, para continuar agregando valor, emprego e renda, nessa cadeia produtiva”, enfatizou o prefeito de Sapezal, Valcir Casa Grande. O fio que Navarro, Fábio e Filemon começaram a puxar é só a ponta de um grande novelo que enfim começa a ser desenrolado. É o início de uma indústria que ainda vai dar muito pano para manga.

Dados do Município

SAPEZAL

Sapezal está localizada no interior de Mato Grosso, distante 509 km da capital Cuiabá, região Centro-Oeste. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2020, sua população é estimada em 26.688 habitantes.

A cidade possui a 11ª maior economia do estado, com PIB (Produto Interno Bruto) dos Municípios de R$ 2.516.823.700 (aproximadamente R$ 2,51 bilhões).

O município é um dos principais produtores de algodão do estado. Dados de 2018 do IBGE apontam para uma área plantada de 168,2 mil hectares (ha), com 756,9 mil toneladas colhidas. A soja também se destaca, com plantio em 355 mil ha e uma produção superior a 1,23 milhão de toneladas. Além destas, outras culturas também se destacam na produção de comodities, como milho, girassol, arroz e feijão.

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